“Há um cuidado em respeitar a essência das canções, deixando-as respirar noutras linguagens.” - Recante em concerto na Casa do Alentejo
Recante estreiam-se no dia 28 de fevereiro, pelas 21h30, na Casa do Alentejo, em Lisboa. Os bilhetes para o espetáculo já estão à venda.
Conduzidos pela inconfundível voz de Maria João Jones, os Recante, através das paisagens e experiências sensoriais que criam, são a personificação clara de uma cultura que se quer viva e que rompe fronteiras geográficas e conceptuais.
Com a eletrónica e a experimentação contemporânea como pano de fundo, sem perder a sua raiz tradicionalmente alentejana, a sonoridade de Recante, surge como uma extensão natural da identidade atual da região, tomando a tradição como ponto de partida para uma viagem sonora inovadora e disruptiva.
Nascidos em 2023, o grupo têm percorrido diversos palcos como o Cineteatro de Almodôvar, Teatro Municipal de Portimão, Promontório da Fortaleza de Sagres, Teatro das Figuras, Festival F, Festival Periférico, Festival Emersivo e ainda Festival de Literatura de São Tomé e Príncipe, provando que a tradição, quando vivida, permanece em movimento.
Agora, preparam uma nova etapa criativa prometendo acrescentar novas texturas ao som do grupo. E é assim, que nasce o concerto de dia 28 de fevereiro, pelas 21h30, na Casa do Alentejo, em Lisboa, assumindo um valor simbólico e emblemático para a banda e para o seu percurso.
O espetáculo acolhido pela Casa do Alentejo propõe um encontro entre território, memória e contemporaneidade numa noite que se quer especial e que contará com a participação do Grupo Coral Raízes do Cante, de Cuba, num cruzamento inédito entre a força da tradição coral e a abordagem arrojada e contemporânea dos Recante, procurando uma simbiose sem precedentes.
Estivemos à conversa com Luís Caracinha e Maria João Jones, membros do projeto que nos contaram um pouco mais sobre este próximo concerto.
Recante nasceu num contexto muito específico, um desafio em apresentar algo de inovador no RHI. Hoje, como é que olham para esse ponto de partida? O que permanece desses primeiros momentos de Recante e o que deixaram para trás?
Maria: Os Recante nascem de um desafio muito concreto: apresentar algo de novo num contexto que, por si só, já carrega uma grande herança e responsabilidade. Esse ponto de partida foi essencial porque nos obrigou, desde o início, a questionar o que significa reinventar sem descaracterizar, criar sem romper com a raiz.
Hoje olhamos para esse início com gratidão e alguma distância crítica. Permanece a vontade de experimentar, o respeito profundo pelo cancioneiro alentejano e a ideia de que a tradição é um organismo vivo. O que ficou para trás foi talvez uma certa necessidade de nos explicarmos ou justificarmos. Hoje confiamos mais no caminho, no som e na maturidade do projeto.
Luís: Para trás, acho que ficou um pouco daquele medo inicial da reação do público a uma abordagem mais disruptiva de um cancioneiro muito enraizado na cultura popular e muito bem defendido pelos projetos tradicionais. Encontrámos um equilíbrio entre o respeitar das canções e o espaço para criar e desenvolver novas ideias.
Como é dar uma nova vida às canções e repertórios tradicionais da vossa infância?
Maria: É um processo profundamente emocional. Muitas destas canções fazem parte da nossa memória afetiva, do território, da família e da comunidade. Ao revisitá-las, estamos também a revisitar quem fomos e quem somos.
Dar-lhes uma nova vida não significa mudá-las por capricho, mas escutá-las à luz do presente. Há um cuidado grande em respeitar a essência dessas canções, ao mesmo tempo que as deixamos respirar noutras linguagens. É um exercício de escuta, de humildade e de responsabilidade artística.
Luís: Eu encaro estes temas como temas de uma vida, estão comigo desde sempre mas na verdade nunca lhes tinha dado tanta atenção e valor, talvez por não ser cantor, sempre vi o cante em particular como parte de um imaginário sonoro e não como canções. É esse imaginário mais irracional que me inspira a encontrar caminhos diferentes.
Os Recante vivem entre a tradição, a criação, a raiz e a reinvenção. Sentem que hoje já ultrapassaram rótulos que antes eram inevitáveis?
Maria: Sentimos que hoje lidamos com os rótulos de forma mais tranquila. No início, eram quase inevitáveis — tradição versus contemporâneo, cante versus criação autoral. Com o tempo, percebemos que essas fronteiras são muito mais porosas do que parecem.
Hoje já não sentimos a necessidade de nos posicionar contra ou a favor de algo. Os Recante são esse lugar de travessia, onde tradição e criação coexistem naturalmente. Se há rótulos, já não nos condicionam da mesma forma.
Luís: Para mim os rótulos são importantes quando os produtos têm data de validade. A arte é intemporal, por isso não me preocupam.
Existem novas linguagens, sonoras ou narrativas que sintam que ainda estão por explorar?
Maria: Sem dúvida. Sentimos que o projeto está em permanente construção. Há linguagens sonoras que ainda não explorámos, formas narrativas que podem surgir, colaborações que abrem novas possibilidades.
Os Recante não são um projeto fechado ou definitivo, mas como um espaço de pesquisa contínua. Essa abertura é essencial para que a música continue viva e em diálogo com o tempo em que existe.
Este concerto na Casa do Alentejo não é apenas mais um. O que é que é significa no percurso dos Recante?
Maria: Este concerto representa um momento muito especial de maturidade e de encontro. A Casa do Alentejo é um lugar simbólico, carregado de memória e identidade, e tocar ali é quase como regressar a casa, mesmo estando em Lisboa.
É também um momento de partilha: com convidados, com o público, com a própria história do projeto. Não é apenas mais um concerto, é um ponto de escuta e de celebração do caminho feito até agora.
Luís: Acredito que este concerto representa o início de um novo ciclo, com um espetaculo novo, canções novas e elementos novos. Vai ser o arranque da nossa temporada de 2026.
O que muda quando se canta num lugar, como a Casa do Alntejo, que já carrega em si, uma carga emocional e histórica tão forte e tão intrinsecamente ligada à região?
Maria: Muda tudo. O espaço impõe respeito, escuta e presença. A Casa do Alentejo não é neutra, traz consigo histórias, vozes, memórias coletivas.
Cantar ali é cantar com consciência dessa carga simbólica. Há uma intensidade diferente, uma responsabilidade acrescida, mas também uma sensação profunda de pertença e de diálogo com quem veio antes.
O que podemos esperar deste concerto, nomeadamente em comparação com concertos anteriores?
Maria: Podem esperar um concerto pensado especificamente para este lugar e para este momento. Haverá reencontros com repertório já conhecido, novas leituras e momentos de partilha com convidados ainda por revelar, que dialogam naturalmente com o universo dos Recante.
Mais do que um espetáculo, será um momento de escuta, de proximidade e de celebração da música enquanto herança viva. Convidamos todas as pessoas a juntarem-se a nós na Casa do Alentejo, no dia 28 de fevereiro, para partilhar este encontro especial, onde tradição, memória e criação se cruzam em palco.
Luís: Sabemos que a canção tradicional alentejana e o seu estilo atravessam um momento positivo cativando o público. O nosso convite é para que neste dia, possam vir conhecer uma abordagem mais afastada da pop com momentos que apelam à viagem.
Os bilhetes para o espetáculo já estão à venda na nossa loja online, podendo usufruir de preços especiais até dia 31 de Janeiro.